Como Feministar Sem Vergonha

Há um tempo (muito) atrás a Vi me pediu um texto sobre feminismo para o blog e, por mais feliz e lisonjeada que tenha ficado, acabei travando. Pensei nas mil formas de como dissertar sobre, o que apresentar? De que ponto partir? Sobre qual perspectiva ou linguagem, qual movimento?

 

Foto: Lindsey LaMont

 

Os adventos da história recente caminharam para lados inimagináveis, e entre pandemias e convulsões políticas, acontece um fenômeno quarentênico nacional: todo mundo assistiu Big Brother. Durante o programa muitas pessoas falaram sobre feminismo, dentro e fora da casa, e várias delas passaram vergonha.

 

Percebi que o movimento é “novidade” para muita gente. E não no sentido de ~não saber~ o que é, mas de estar recentemente envolvida com o tema. E quando nos deparamos com o movimento feminista nas primeiras vezes, a experiência pode ser tudo, menos tranquila. Quem já buscou uma aproximação do assunto sabe que ele começa por espaços de diálogo que abordam violência de gênero. Os relatos são diversos, as experiências são únicas, e quanto mais seguro é o espaço de fala e escuta, mais pesadas são as histórias.

 

E dizendo apenas por experiência, julgo impossível entrar nesses espaços e sair exatamente a mesma.

 

Foto: Andriyko Podilnyk

 

Quando compreendemos o valor e a necessidade do feminismo através da vivência real de outras e outros, passamos a reconhecê-la na nossa própria história. Depois disso, começamos a enxergar machismo em tudo. Todas as falas, matérias, filmes, diálogos, de repente o mundo parece constantemente misógino e opressor e, novidade: tem sido há alguns séculos. Nascemos e crescemos em uma terra que, se fosse plana, estaria guardada em um grande envelope patriarcal.Todas nossas funções cognitivas e sociais, em algum ponto, estão ancoradas em pilares fundamentalmente machistas, que, conscientemente ou não, acabamos manifestando ao longo da vida. Quer dizer, ninguém está LIVRE de soltar um machismo a qualquer momento, ou agir dessa forma sem nem mesmo perceber. Não escapamos nem na dialética: a língua portuguesa constantemente apaga e violenta o feminino. QUEM NUNCA não virou feminista, soltou um “FILHA DA P…” (ou derivados; todos misóginos, é só testar) e se sentiu mal depois? A isso chamamos processo de desconstrução: identificar os padrões desses manifestos, buscar a raiz deles, questiona-los. Desconstruí-los, manda-los ao ralo da humanidade a que pertencem, junto de todo sistema patriarcal que oprime mulheres (e homens ou não-binários) do sistema que vivemos.

 

Mas esse processo delega tempo. Não só tempo, mas muito estudo, paciência, capacidade de escuta e compreensão do espaço de fala.

 

Foto: Seven Shooter

 

Esses pré-requisitos não são novidade para quem adentra qualquer espectro (lá vem a palavrinha mágica) p o l í t i c o. A palavra política vem de polis, que significa cidade, e vou ser sincera, sei mais de cidades do que política. Mas sei que política se faz com, no mínimo: estudo, paciência, capacidade de escuta e compreensão do espaço de fala. Política é sobre o todo. Se compreendemos a origem do manifesto do machismo como estrutural, vejam só: passamos a reconhecer estruturas sociais. Elas existem. Os pilares misóginos são reais, mas não são os únicos. E aqui reside o segredo para evitar passar vergonha.

 

A insurreição de um movimento duradouro e que de fato conquiste realizações materiais (legais, econômicas) dificilmente vai acontecer em ambientes apolíticos. Quando enxergamos o machismo no todo, na estrutura, precisamos contextualiza-lo como um problema social. E talvez os motivos que levaram você a buscar os espaços de fala pareçam, de repente, apenas detalhes dentro de um todo. Por exemplo, quando ouço um fiu-fui na rua, fico anojada, emputecida, com muita raiva e, sinceramente, mando tomar no c* (ofensa estruturalmente ofensiva que, sim, também deve ser repensada e descontruída). Mas não é como se eu fosse uma mãe diarista, responsável pela tarefa doméstica de outras famílias, e que não tem creche para deixar os filhos. Crianças desassistidas e sem acesso à educação não são apenas problemas pessoais, e provém de uma dinâmica que, assim como a língua portuguesa, anula e violenta o feminino. Revejo alguns traumas de infância onde os meninos eram permitidos brincadeiras, atividades e até vocabulário que, se eu reproduzisse, seria reprimida pelo simples fato de ser mulher. É diferente de sofrer violência sexual dentro de casa, por um padastro, tio, primo ou avô. E não é como se as experiências que relatei não tenham sido exemplos válidos e dolorosos de machismo, que não devam ser discutidas. É que com paciência, estudo e escuta, compreendemos duas coisas: primeiramente, a pauta pode ser muito diferente mesmo sendo a mesma; e também que, politicamente, no todo, o machismo atua das mais variadas formas. E algumas são extremamente pungentes, se tornando intensamente destrutivas quando aliadas a OUTRAS estruturas corrosivas e devastadoras do nosso sistema. Precisamos de ambientes de escuta pautados democraticamente, considerando um todo, para entender nossa vez e não passar vergonha.

 

Foto: Omar Lopez

 

Existem muitas vertentes históricas do feminismo, espaços diversos onde pode ser discutido e deve ser convocado. Apesar de todas sentirmos tristeza ao conhecê-lo, muita revolta ao reconhecê-lo e passar várias vergonhas no processo de desconstruí-lo, o feminismo é extremamente empoderador. Essa é uma palavra linda de se adicionar ao vocabulário e é o que acontece quando compreendemos nossos espaços de fala.

 

Às vezes eles existem e são cordialmente cedidos a nós, às vezes eles não existem, e temos a opção de criá-los ou tomá-losÀs vezes esse espaço pertence ao outro, e essa lição é poderosíssima. Minha necessidade de manifesto não pode superar minha capacidade empática de, dentro de sistemas democráticos, compreender dinâmicas que evidenciem meu lugar de escuta. E não é uma lógica complexa. Se essa estrutura machista foi tão pesada de sentir nos próprios ombros e me trouxe até aqui, imagina quando vem acompanhada de outros pilares, senão vigas e quiçá lajes de uma estrutura social doente.

 

 

Texto escrito por Gabriele Seffrin, Urbanista, feminista e alguns outros istas
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